sábado, 7 de julho de 2012

começando a vagabundear com vocês!

...Alterno o olhar caçador com o olhar vagabundo. O olhar vagabundo não procura nada. Ele vai passeando sobre as coisas. O olhar vagabundo tem prazer nas coisas que não vão ser compradas e não vão ser comidas. O olhar caçador está a serviço da boca. Olham para a boca comer. Mas o olhar vagabundo, é ele que come. A gente fala: comer com os olhos. é verdade. Os olhos vagabundos são aqueles que comem o que vêem. E sentem prazer."  Ruben Alves





É claro que pensei ser mais fácil, começar a escrever sobre coisas, lugares, comidas, vinhos, fotos e, quem sabe, algo que interesse compartilhar e ser compartilhado. Não com a prepotência de deixar algum legado para a humanidade, creio que, além de uma receita de galinha d’angola e dicas de como não apavorar diante de esquecimentos grotescos, como quando esqueci minha mãe no posto de gasolina numa viagem, onde viajávamos apenas nós dois, bem, deixarei ao menos a síntese do bom sofrimento, o de ser pobre, mas de ter bom gosto. A vontade latente nasceu de um evento, único... Não digo indizível por tentar dizer aqui, é claro, mas que afetaria tudo o que viria a enfrentar no espaço-tempo que tive até então, aqui na terra, e relembrar quase tudo de importante que vivi nesses bem mais ou menos vividos 49 anos. Esse evento foi minha certa e eminente morte. É claro que não morri. Estou no notebook e não numa tábua de ouija... Mas vou explicar a situação.
Minha companheira tirou uns dias de férias, e decidimos, ela é claro, irmos para a praia. Nós, seu filho, amiga do filho e um casal de sobrinhos. Ficaríamos na casa de um colega do trabalho dela, que alugou em preço muito bom para nós. Andava muito ansioso e decidi que não iria de carro, onde senti na minha companheira um leve desejo de me esganar. Ela queria conhecer lugares, dançar forró numa cidade próxima, passear com a garotada, e é claro, de ônibus não rolaria. Mantive firme minha decisão e preparei toda a parafernália para passar uma noite em um ônibus, ou seja, livros, centena de musicas no mp sei-lá-que-numero, remédios para dormir, e assim não utilizar nada que preparei, lanche, roupa confortável....e fomos lá. Quando chegou a amiga do meu enteado com um guarda-roupa com rodinhas, me deu um leve desanimo que elevou quando pensei na situação... Teríamos de descer nossa rua, que tem uma micro calçada, uns nove quarteirões para chegarmos à estação de metrô, onde seguiríamos para a estação do ônibus. Seria e foi meio cômica, uma comitiva em fila indiana pelo canto da rua, eu com a mala maior, do tipo guarda-roupas móvel, que minha companheira arrumou, e devia estar levando alguma coleção de botas e bigornas, e mais 5 pessoas arrastando malas numa rua de calçada miserável, mas, para minha surpresa e do meu mau humor, chegamos bem. Houve algo estranho no caminho, pois atravessávamos uma passarela, eu, confortavelmente de chinelos, senti algo enganchar entre meus dedos, e vi que era um anel. Peguei-o e percebi ser um desses em formato de cobra, minha esposa virou e perguntou o que aconteceu, e num veloz raciocínio disse que era uma bugiganga e o atirei da ponte, antes que ela pegasse para ver, e quem sabe gostasse desse bizarro e meio místico anel de cobra. O pior, é que ela havia ganhado um anel de aniversário de sua sobrinha, de prata e falso brilhantes num formato de mola, e talvez, ele tenha ficado agarrado na mala, escorregado enquanto a mala era arrastada pelo piso irregular e esburacado da passarela e entrado entre meus dedos, e eu tenha visto com olhos preconceituosos e míopes, já que não uso meu óculos apesar de 2.5 graus de ruindade, de longe, perto e mais ou menos. O fato é que o anel sumiu e somente depois de pensar bem, aceitei moderadamente que acho que o joguei fora. Até o momento em que as malas estavam ajudando a entupir o bagageiro do ônibus e eu me posicionava confortavelmente na poltrona da janela com minha mochila que parecia o cinto do batman, foram algumas tensões sem sentido, um pouco, talvez, pela cantina da rodoviária, que além de espartana, era bem suja. A viagem de ida foi excelente, exceto pelo infeliz que vomitou no corredor próximo de minha cadeira, com odor de queijos que, acho, cheirei parecidos no interior da frança, mas misturados com enxofre e sardinha. Como não tem rodomoça, ficou aquela coisa, parecendo uma pizza, no chão à minha frente, enquanto os outros dormiam. Li um pouco, escutando musicas e tomei um remédio para dormir, que penso, só funciona na minha cama, pois ficava como um zumbi, meio morto-vivo, entre o acordado e o dormindo apesar do cheiro à volta. A verdade é que cheguei descansado, pois consegui dar boas cochiladas, após ouvir toda a trilha sonora do exorcista, que é do mike oldfield, ler umas 5 linhas de um ótimo livro e tomar um diazepan, numa ordem inversa, é claro. A chegada prometia ser mais cômica, pois havia chovido nos dias anteriores e havia poças enormes em ruas de terra, areia e barro, e a comitiva seguia puxando malas, que tombavam, agarravam as rodinhas e atolavam. Eram chinesas e de preço modesto, portanto, cumpriam seu oficio de levar uma bagulhada de coisas que certamente não seriam usadas, exceto sungas, biquínis, camiseta e bermudas, além de uma toalha para cada, que caberiam, tudo, na mala da amiga de meu enteado. Em certo ponto da rua, enquanto procuravam o numero pelo endereço, que foi anotado errado, e pontos de referência de quando estiveram hospedados nessa mesma casa em passado bem distante, pude notar que prometia serem interessantes e divertidos os dias seguintes, já que estavam todos razoavelmente contentes naquela lama. A casa era ótima e simples, e nas devidas providencias de equipar o lugar, meus sentidos me cutucavam sobre onde seria a peixaria mais próxima. Fui ao mercado mais próximo e em pouco tempo estava a casa abastecida, geladeira cheia e funcionando, e eu planejando que tipo de pescado faria primeiro. Minha felicidade foi plenamente satisfeita com minha companheira me levando na peixaria à beira mar, que ficava a dois quarteirões de onde estávamos. Fartura era apelido, e preços ótimos para quem tem hábito de comprar pescados. Camarões, pescadas e dourados fartaram nossa primeira noite e já pensava no dia posterior. Tinha de ser especial. Ficara sabendo de uma feira semanal onde os locais compravam seus produtos frescos, tanto do mar quando do interior. A dica era chegar antes das 7 da manhã, o que não seria problema, pois acordo cedo todos os dias. Aliás, meu acordar cedo era inversamente proporcional ao meu dormir cedo, bem como meu senso de direção que parece a de um pombo, mas embalsamado. Digo por não saber se havia passado a feira ou se estava indo para o lado certo, isto tendo o mar, enorme, de um lado, a rodovia bem nítida acompanhando a serra, enorme de outro, onde me restavam apenas o direito e esquerda, mas fui certo apesar da atroz duvida pelo caminho. Então começa um capitulo inesquecível de minha vida. Adoro fotografia, e com a máquina fotográfica a postos fui para a feira. Fotografei o que achava interessante sob uma luz ótima, pois estava uma manhã nublada, e o colorido das bananas, laranjas, biscoitos, botinas invadiam uma estreita pista de meio quarteirão. Pensava ser maior e de maiores opções, mas que nada. Havia uma única pessoa vendendo peixe, que fotografei o seu estoque de uma única caixa assim que me posicionei à sua frente. Enquanto fotografava, perguntei o nome do peixe, de carne clara como linguado, ele respondeu em meio aos cliques que dava na maquina e, creio, ricocheteou nos meus ouvidos e na variedade de pensamentos que tenho o tempo todo, pois não lembrava nem me importava o nome, rapidamente comprei uns quilos e pensei ir para casa. Além da maquina, que levava numa bolsa, levei uma caixa de isopor, pensando na fartura que seria, já que minha esposa dizia sempre que ali havia os enormes camarões da Malásia. No observar a pobreza da caixa, minguada pelo pequeno volume no fundo, e olhando as horas, umas 8 da manhã, e certo que estariam todos babando no travesseiro, decidi pegar o ônibus para a cidade mais próxima, que era grande e com um enorme mercado, onde havíamos decido na estação rodoviária assim que chegamos de nossa viagem interestadual e para alguns, com a prova de algumas estranhas fragrâncias do ônibus, interestomacal ou interintestinal. Uns 20 minutos depois estava chegando ao mercado, e de cara, com um box de camarões da Malásia, e ao observar direito, parecia ser o único, e o tal mercado de peixe tinha muita rapadura, banana e pimentas, mas de peixe mesmo estava bem pobre. Ao mostrar interesse ao vendedor, esse me informou ter vendido todo o estoque ao sujeito que estava à meu lado, e este me disse quase simultaneamente que os camarões estavam todo vendido para um grande restaurante de outra cidade e que ele iria levar assim que despejasse em sua pequena peixaria um estoque razoável de pescadinha que comprou, e era na mesma cidade em que eu estava. Disse a ele que minha esposa estava louca para comer tais camarões, que essa era a minha razão de optar por aquela região, e alguma saliva após, ele me cedeu uns generosos 7 quilos, e pelo mesmo preço que comprou. Melhor ainda, me levaria de carona, já que era na mesma pequena cidade a sua peixaria. O carro parecia ser a própria peixaria, pelo cheiro e estado, mas mesmo assim, foi um bom papo, mas, bom demais pra ser verdade, ele ficara num trevo, antes do inicio da cidade, onde ficava sua peixaria, a alguns quilômetros de distancia da casa em que estava hospedado, e tendo que levar, no ombro sapecado pelo sol do dia anterior, uma caixa com uns 15 quilos, entre, peixe, camarão e gelo. Pior foi a bronca, pois não percebi que meu celular havia desligado no bolso da calça o que deixou minha esposa ligeiramente puta da vida comigo. Fui chegando, com o ombro esfolado, com as costas doendo, os bolsos vazios e levei um sabão dela e uma gozeira dos meninos. Dei um sorriso de um lado só da boca, como do esquilo da Era do Gelo antes de rachar uma ilha, e fui despejar e guardar o soldo daquela aventura. Claro, eles foram pra praia e me deixaram pra trás. Só não ficou pior pela minha satisfação de ver a conquista do dia. Pensava no que fazer com os peixes, se empanava ou fazia uma moqueca, mas decidi pelo empanado já de cara, quando me lembrei dos adolescentes e de sua preferencia por frituras a cozidos. Após um dia de praia normal, e de fazer as pazes com todos, com ligeira dificuldade devido ao humor de ursa roubada de filhote que estava minha esposa naquela manhã devido ao celular desligado, cheguei na casa, tomei um banho e fui pra cozinha. Temperei os peixes, empanei, e estranhamente, a farinha não aderia bem ao pescado. Pensei comigo se seria panga, mas então me lembrei do som das palavras, passando em volta da minha maquina fotográfica e passando como vento leve pelos meus ouvidos, misturado e mixado pelo som do mar uns metros abaixo....baiacu. 

Sou até bem informado, principalmente se o assunto é alimento, mas confesso que, ao dar a primeira bocada num pedaço ainda muito quente, após salpicar umas gotas de limão, descobri que estava perto do fantástico. Textura, aroma e sabor que me fizeram deixar em segundo ou décimo segundo plano o tipo de peixe, sua raça, cor, time ou credo. Fiz salada, arroz e pirão para acompanhar, e foi um nutritivo, leve e excelente jantar. Ceia terminada e já era evidente a euforia, pois estavam todos coçando para tomar sorvete e passear no centro da pequena cidade, que limitava a duas quadras de uma avenida, com uns bares, restaurantes, uma agencia do banco do brasil e duas igrejas, uma católica e uma da universal eu acho. Provavelmente todas vazias, inclusive os bares e sorveterias, devido à chuva e falta de turistas. Decidi ficar em casa lendo, já que minhas costas doíam, bem como o ombro esfolado e o ego trincado. Não fizeram muita questão de minha presença mesmo, e fiquei aliviado por ficar sozinho em casa, sem os gritos dos garotos, com um vinho branco aberto e meu livro que estava pra lá de interessante. Tuareg. Na top list dos livros que li, creio que esse está entre os melhores. A Biblia não conta, pois o manual do Fabricante é necessidade antes da obrigação. O senhor dos anéis deve ser o segundo ou terceiro, e esse Tuareg estava em um ponto em que não via a hora de abrir as paginas e acompanhar a aventura que estava sendo descrita de maneira fantástica. De repente, sinto um leve torpor. Fiquei com o rosto em brasas, meu coração acelerou numa taquicardia em ritmo de samba enredo, e então meus lábios foram ficando dormentes. Passou então para a minha língua e a sensação era que em breve minha orelha também ficaria. Meu cérebro parece ter pegado no tranco, como um maverick que tive no passado que dava um pulo quando era pra pegar empurrado. As palavras do vendedor de peixes pareceram ser finamente equalizadas... baiacu, e minha memória, já ativa e repleta de informações boas e inúteis, trouxe todo o episódio do simpsons onde o Homer come baiacu, ou fugu em japonês, e fica envenenado e com a morte certa por vir. Vasculhei a casa e encontrei meu celular, que tinha plano de internet, e com um misero ponto de sinal, o melhor sinal de todos os dias que tivemos ali, entrei no site de buscas e coloquei a palavra baiacu. Demorou mais do que o normal, mas apareceu as letras azuis, separadas em capítulos, onde o primeiro dizia:..”morre no japão mais uma vitima da ingestão do baiacu”...após ler até as estatísticas de japoneses que morrem dessa iguaria, voltei e procurei nos tópicos abaixo, onde um dizia:...”não existe antídoto para o veneno do baiacu...” Após entrar na corrente sanguínea, era caveira certa. Voltei e no capitulo que era sublinhado as características de envenenamento por baiacu, comecei a ler lentamente, com os óculos na ponta do nariz, os lábios parecendo que receberam uma descarga de fogo e nitrogênio juntos, e o coração querendo desmanchar na marques de sapucai, fui lendo no misero visor do celular...”lábios dormentes são o primeiro sintoma, seguidos de taquicardia...”e ... acabou o sinal. Quase tive um treco ali mesmo. Tentei inúmeras vezes, mas tudo lembrava um tipo de humor negro, um misto de woody alen e Stephen King, e nada de sinal novamente. Sentei um pouco e então pensei em minha companheira e nas crianças. O pavor veio como um banho que se leva quando se coloca uma roupa nova e passa um carro numa grande poça ao nosso lado. Fiquei paralisado e não acreditando que aquilo estava acontecendo. Pensei na morte como se fosse algo como um liquidificador na sala, inconveniente e fora de lugar, algo pra ser lembrada por velhos, fumantes e comedores de fast food. Eu não estava pronto, não numa praia, com um bronze legal e uma fartura na adega. Morrer era algo que certamente arruinaria minha alto-estima. A salvação era algo que tinha certeza, mas não estava querendo usar ainda, e minha certeza passou a ser juíza de muitas coisas que lembravam um redemoinho, como no filme twister, a diferença é que estava no olho, sentado na privada esperando pra ser sugado e, a certeza estava perdendo para o medo e decepção. Como alguém pode morrer envenenado por baiacu numa praia do Espirito Santo? Eu me achava esperto, e com bronzeado que estava, era até injusto. Com um livro na mão embalando numa rede fico até bem afeiçoado. Não era hora de morrer. Tem o casamento de minha filha que preciso estar presente, um dia. A morte certa faz você filosofar como não imaginava poder. Culpa por tudo que não fiz, ou fiz errado, tristeza por tudo que não farei, dias que não viverei para compensar o pouco que tenho dedicado à Deus, família, amigos, necessitados, pescaria. Não conseguia simplesmente ser grato por tudo que já tinha passado e vivido, conhecido e provado na minha complexa vida. Ingratidão é parceira do medo. Nasci na pobreza, com pai alcóolatra e ausente, que era melhor que presente, sem tutor, orientador ou modelo a seguir, consegui ser absorvido pela fantasia, pela vida dos outros, personagens que conhecia nas inúmeras leituras, começando pelo Conde de monte cristo, que me valeu o apelido de conde pela minha irmã, por ler inúmeras vezes seguidas, seguidos por Sobrinhos do Capitão, Ultimo dos Moicanos e assim foi, sem tv em casa mas com uma biblioteca da igreja São José do Calafate a poucos quarteirões, e por ser tão frequente, fui promovido a auxiliar de bibliotecária, que era muito idosa e  não conseguia carregar os livros, pelo então padre Tobias, que me lembrava o guarda do Zé Colméia, e era muito bacana comigo. Tentou me fazer coroinha, mas não deu certo, pois eu tive um ataque de riso na minha primeira assistência, ao ver como as pessoas ficavam assistindo a missa. Eram cochilos, babas pelo canto da boca, coceiras, caretas, não era pra mim, ainda mais que tinha um incensário, que lembrava um bolsa pegando fogo, que imaginava encostando na batina do padre e ele saindo correndo com chamas pelas pernas e se atirando no batistério, como em desenhos animados. Dificil era mudar minha cara de esforço pra não rolar de rir. Preferia a biblioteca e os livros, pois me sentia muito importante naquele lugar. Com poucas semanas já podia levar até um volume da Barsa para casa. Era o meu sonho de consumo e objeto de inveja de um amigo, que tinha toda a coleção na biblioteca de seu pai, fora o ter uma família normal. Não que fossemos anormais, acho que seria necessário nos deixar juntos por mais de 4 horas para sermos classificados como anormais. Mas agora, eu tinha 8 meses de europa, 2 natais em Nova York, férias no caribe, vários passeios pela America do Sul, dormi no Saara, conheci 20 paises sem nunca ter sido rico, visitei todos os grandes museus do mundo satisfazendo um sonho impossível da juventude, li quilômetros de livros e para saciar não somente minha vaidade e ego avantajado de comer pratos como das revistas, sem arroz e feijão todos os dias, aprendi a cozinhar. Não foi difícil, pois desde os 12 anos já auxiliava a minha mãe, a melhor cozinheira do mundo. Não era bom com carnes, pois até minha adolescência, era limitada a sobrecu de frango. Mas com o tempo e pratica, me tornei viciado. Faz alguns anos que gastronomia passou a ser prioridade entre meus hobbies, mais que fotografia, filmes, musicas e livros. Foram muitos cursinhos, curso no Senac e faculdade na Estácio de Sá, finalizando com estágio na França em um restaurante de 3 estrelas. Como deixei essa paixão me matar, sem ser por indigestão, excesso ou espinha de peixe? Envenenado por baiacu era decepcionante.
Lembrei-me de alguns amigos e imaginava os comentários em meu velório, sobre o ter morrido por algo relacionado à comida, que era até relativamente melhor que por cirrose de vinhos. Minha mente passou a fervilhar, a liquidificar seria mais correto. Imagens, comidas que queria fazer, os vinhos... o que seria de meus vinhos, porque não tomei aqueles que trouxe da Borgonha, da toscana, pra que estava guardando?. Quem seria o filho de uma égua que tomaria aquele chiante de 1967 que ganhei na Toscana de um rico interessado em me impressionar, como se eu valesse ser impressionável?...Minha filha nem minha mulher bebem. Meus amigos iriam rir com discrição do que deixei para trás e eu nem sei se eu rolaria no tumulo... E as crianças meu Deus, eu aqui pensando em vinhos, com o ego desmanchando como clara de ovos entre os dedos num egoísmo que me corou, então sai rua à fora, literalmente, lama à fora, pois havia caído uma chuva e a porta da casa dava para um lamaçal que não tinha como desviar. Olhei para a rua e ninguém. Merda, eu estava sem carro, pra que fui vir de ônibus, eu pensava nessa hora e imaginava a frase... ”eu te disse, eu te disse” de minha mulher.... O tal de centro ficava a uns 20 quarteirões à frente, com o chão de terra molhada e muito barro, uma mistura de brisa fria com vapor com maresia e meu chinelo parecendo um tamanco pelo barro e fui em disparada. Havia a possibilidade deles estarem na avenida abaixo, que era beira-mar, mas temia desencontrar, e fui torcendo pra não morrer antes de ver as crianças e como estavam todos. Percebi que estava encharcado de suor quando fui chegando na avenida principal, e fui logo procurando algum amontoado de gente, sirene, gritos de acudam, socorro, policia, ambulância,vsei lá o que, mas nada, nem eles eu encontrei. Fui de ponta a ponta dos dois já agora enormes quarteirões de lojas, sorveterias e bares, e nada, voltei no lado contrário, do que pareceu ter sofrido alguma expansão mágica, já que as lojas pareciam multiplicar e nada. Talvez tenha passado depressa demais. Estava suando, com o rosto fervendo e a boca seca, coração aos galopes, mas não pensei nem em comprar uma água. Refiz todo o trajeto, talvez ainda mais rápido, atento a qualquer bolinho de pessoas e atento à alguma sirene ou gritos de desespero, e nada. Talvez estivessem voltados pela avenida de baixo, ou pela avenida de cima, com uma das crianças passando mal, talvez com alguma convulsão, visualizava alguém sendo arrastado num ponto distante da rua, mas era a sombra de um arbusto numa poça abaixo de um poste de luz amarela. Com olhar atento e ouvido aguçado pelo medo e pela adrenalina, que parecia martelar meu coração, cheguei novamente em casa, mas nada. Lavei o rosto, tomei um remédio pra pressão, outro, e quando me ajoelhava para orar e pedir perdão à Deus pela tragédia que poderia ter causado, ouço um dos adolescentes rindo alto, e então, muita risada, quando passa então minha meio sobrinha, com choro contido, pisando forte e cheia de lama, melhor, completamente coberta de lama. Todos vieram em seguida rindo discretamente, pois ela havia levado um escorregão brincando com os meninos e caído de cara na lama. Com seus olhos imensos e verdes, numa mascara de lama, parecia bem engraçada mesmo. Observei atentamente a cada um deles e ninguém parecia nem de longe com algum tipo de mal estar, pelo contrário, estavam mais felizes que eu merecia. Fui tomar um banho, pois estava muito suado e nem notaram que eu havia saído em uma busca frenética por eles. Tomei uma cuba-libre tripla e fomos jogar baralho. Estava mais relaxado, até que fomos dormir. Meu coração continuava disparado, minha língua dormente, e o medo não diminuiu. Peguei o livro, e deitei ao lado de minha companheira, que nessa noite, para meu alivio, dormiu em seguida, talvez por toda a agitação e brincadeiras na praia. Coloquei o copo com uma nova Cuba-libre na cadeira ao lado da cama e fui ler o meu livro, que estava ótimo e me perguntava se morreria antes de chegar ao final. Pensei em ler de trás pra frente, mas não, preferi deixar rolar. Li algumas horas e terminei o livro. Estava com muito sono. Cheguei a dar muitas cochiladas, mas temia dormir e não acordar, sem perceber que seria um mortaço, morrer dormindo. Se morrer é dormir, seria apenas uma continuação, mas não sei se sonharia, e muito menos se estava preparado pra dormir por muito tempo, já que estava trajando uma bermuda e camiseta bem surrada, que não representava um traje para longa jornada, mesmo de sono. Peguei outro livro que havia levado, mas o primeiro foi tão bom que já comecei esse novo desanimado, principalmente pelo esforço de não dormir. Peguei meus remédios e decidi tomar meu ansiolítico, certo que dormiria. Chega de medo, pensei e decidi. Tomei com a agua gelada dos gelos que derreteram da cuba e coloquei o livro apoiado na cama, na minha posição habitual de dormir, geralmente com o livro caindo, e eu dormindo com o abajur ligado. Na medida em que as pálpebras iam pesando percebi que o medo foi embora. Meu coração já estava mais calmo e menos saltitante, e a língua um pouco melhor, e apesar de tudo que agitava minha mente, estava completamente em paz. Orei e agradeci a Deus por ter tido na vida muito mais do que mereci, mas acima de tudo por estar confiante que não fugi de Seu amor, nem desacreditei nas Suas promessas. Não morri, é claro, e nunca contei esse episódio a nenhum deles.
Acordei com um dia lindo e estava disposto a repensar muita coisa, mas acima de tudo, de compartilhar alguns momentos com outras pessoas, já que não sei, nem ninguém sabe, quando será seu ultimo momento, minha ultima oportunidade de fazer o certo ou evitar o errado, de acrescentar algo de bom na vida dos outros. Estou certo de que minhas preferências massageiam minha vaidade, e por ser todo impulsivo, tudo o que fiz foi exagerado, como a criação de uma adega, nos estudos para entender as coisas que gosto de ingerir, no tempo que gastei baixando e assistindo filmes ou lendo livros. Podia ser pior, como gostar de pagode, bbb, novelas e assistir a rede globo. Lembranças são muitas em quem tem um olhar como tive, valorizando demais o sofrimento e dificuldades. Já tive meu coração partido, e isso não acontece duas vezes, depois são arranhões. Vale a pena viver o hoje e ser grato pelo ontem e crer no amanhã. Gratidão era o que faltava em minha vida. De hipocrisia e falta de amor o mundo está cheio, pois ele pertence ao mal, ele, todo o mundo, jaz no maligno, mas eu posso acordar todas as manhãs e renovar, começar de novo, deixando de lado meus tropeços, erros e as coisas que devem ser deixadas de lado, pois bronzeado ou não, posso morrer a qualquer momento, até comendo um prato light.
Como foi um protagonista de toda minha real trama dramática, o camarão da Malásia será meu primeiro prato a compartilhar.

Camarão da Malásia com cuscuz e pêsto. 

o cuscuz: misturar farinha de milho e de mandioca e hidratar.Refogar no azeite a cebola,atum,palmito,azeitona,tomate e salsa.Misturar a farinha,acrescentar molho tomate,caldo de camarao ou galinha e pronto.Azeite com manjericão ervas e amêndoas.

Vinho: SAN JOSE DE APALTA VIOGNIER – Chileno de excelente custo beneficio, pois custa pouco mais de 30 reais. Tem bom corpo, equilibrado sem excesso de frutas nem exageradamente ácido. Perfeito para acompanhar peixes, risotos e massas leves.

...então comecei...! Um abraço e parabéns pelo exercício da paciência!