É claro que pensei ser mais fácil,
começar a escrever sobre coisas, lugares, comidas, vinhos, fotos e, quem sabe,
algo que interesse compartilhar e ser compartilhado. Não com a prepotência de
deixar algum legado para a humanidade, creio que, além de uma receita de galinha
d’angola e dicas de como não apavorar diante de esquecimentos grotescos, como
quando esqueci minha mãe no posto de gasolina numa viagem, onde viajávamos
apenas nós dois, bem, deixarei ao menos a síntese do bom sofrimento, o de ser
pobre, mas de ter bom gosto. A vontade latente nasceu de um evento, único... Não
digo indizível por tentar dizer aqui, é claro, mas que afetaria tudo o que
viria a enfrentar no espaço-tempo que tive até então, aqui na terra, e
relembrar quase tudo de importante que vivi nesses bem mais ou menos vividos 49
anos. Esse evento foi minha certa e eminente morte. É claro que não morri.
Estou no notebook e não numa tábua de ouija... Mas vou explicar a situação.
Minha companheira tirou uns dias de férias, e decidimos, ela é claro, irmos
para a praia. Nós, seu filho, amiga do filho e um casal de sobrinhos. Ficaríamos
na casa de um colega do trabalho dela, que alugou em preço muito bom para nós. Andava
muito ansioso e decidi que não iria de carro, onde senti na minha companheira
um leve desejo de me esganar. Ela queria conhecer lugares, dançar forró numa
cidade próxima, passear com a garotada, e é claro, de ônibus não rolaria.
Mantive firme minha decisão e preparei toda a parafernália para passar uma
noite em um ônibus, ou seja, livros, centena de musicas no mp
sei-lá-que-numero, remédios para dormir, e assim não utilizar nada que
preparei, lanche, roupa confortável....e fomos lá. Quando chegou a amiga do meu
enteado com um guarda-roupa com rodinhas, me deu um leve desanimo que elevou quando
pensei na situação... Teríamos de descer nossa rua, que tem uma micro calçada,
uns nove quarteirões para chegarmos à estação de metrô, onde seguiríamos para a
estação do ônibus. Seria e foi meio cômica, uma comitiva em fila indiana pelo
canto da rua, eu com a mala maior, do tipo guarda-roupas móvel, que minha
companheira arrumou, e devia estar levando alguma coleção de botas e bigornas, e
mais 5 pessoas arrastando malas numa rua de calçada miserável, mas, para minha
surpresa e do meu mau humor, chegamos bem. Houve algo estranho no caminho, pois
atravessávamos uma passarela, eu, confortavelmente de chinelos, senti algo
enganchar entre meus dedos, e vi que era um anel. Peguei-o e percebi ser um
desses em formato de cobra, minha esposa virou e perguntou o que aconteceu, e
num veloz raciocínio disse que era uma bugiganga e o atirei da ponte, antes que
ela pegasse para ver, e quem sabe gostasse desse bizarro e meio místico anel de
cobra. O pior, é que ela havia ganhado um anel de aniversário de sua sobrinha, de
prata e falso brilhantes num formato de mola, e talvez, ele tenha ficado
agarrado na mala, escorregado enquanto a mala era arrastada pelo piso irregular
e esburacado da passarela e entrado entre meus dedos, e eu tenha visto com
olhos preconceituosos e míopes, já que não uso meu óculos apesar de 2.5 graus
de ruindade, de longe, perto e mais ou menos. O fato é que o anel sumiu e
somente depois de pensar bem, aceitei moderadamente que acho que o joguei fora.
Até o momento em que as malas estavam ajudando a entupir o bagageiro do ônibus
e eu me posicionava confortavelmente na poltrona da janela com minha mochila
que parecia o cinto do batman, foram algumas tensões sem sentido, um pouco, talvez,
pela cantina da rodoviária, que além de espartana, era bem suja. A viagem de
ida foi excelente, exceto pelo infeliz que vomitou no corredor próximo de minha
cadeira, com odor de queijos que, acho, cheirei parecidos no interior da frança,
mas misturados com enxofre e sardinha. Como não tem rodomoça, ficou aquela
coisa, parecendo uma pizza, no chão à minha frente, enquanto os outros dormiam.
Li um pouco, escutando musicas e tomei um remédio para dormir, que penso, só
funciona na minha cama, pois ficava como um zumbi, meio morto-vivo, entre o
acordado e o dormindo apesar do cheiro à volta. A verdade é que cheguei
descansado, pois consegui dar boas cochiladas, após ouvir toda a trilha sonora
do exorcista, que é do mike oldfield, ler umas 5 linhas de um ótimo livro e
tomar um diazepan, numa ordem inversa, é claro. A chegada prometia ser mais
cômica, pois havia chovido nos dias anteriores e havia poças enormes em ruas de
terra, areia e barro, e a comitiva seguia puxando malas, que tombavam,
agarravam as rodinhas e atolavam. Eram chinesas e de preço modesto, portanto,
cumpriam seu oficio de levar uma bagulhada de coisas que certamente não seriam
usadas, exceto sungas, biquínis, camiseta e bermudas, além de uma toalha para
cada, que caberiam, tudo, na mala da amiga de meu enteado. Em certo ponto da
rua, enquanto procuravam o numero pelo endereço, que foi anotado errado, e
pontos de referência de quando estiveram hospedados nessa mesma casa em passado
bem distante, pude notar que prometia serem interessantes e divertidos os dias
seguintes, já que estavam todos razoavelmente contentes naquela lama. A casa
era ótima e simples, e nas devidas providencias de equipar o lugar, meus
sentidos me cutucavam sobre onde seria a peixaria mais próxima. Fui ao mercado
mais próximo e em pouco tempo estava a casa abastecida, geladeira cheia e
funcionando, e eu planejando que tipo de pescado faria primeiro. Minha
felicidade foi plenamente satisfeita com minha companheira me levando na
peixaria à beira mar, que ficava a dois quarteirões de onde estávamos. Fartura era
apelido, e preços ótimos para quem tem hábito de comprar pescados. Camarões,
pescadas e dourados fartaram nossa primeira noite e já pensava no dia
posterior. Tinha de ser especial. Ficara sabendo de uma feira semanal onde os
locais compravam seus produtos frescos, tanto do mar quando do interior. A dica
era chegar antes das 7 da manhã, o que não seria problema, pois acordo cedo
todos os dias. Aliás, meu acordar cedo era inversamente proporcional ao meu
dormir cedo, bem como meu senso de direção que parece a de um pombo, mas
embalsamado. Digo por não saber se havia passado a feira ou se estava indo para
o lado certo, isto tendo o mar, enorme, de um lado, a rodovia bem nítida
acompanhando a serra, enorme de outro, onde me restavam apenas o direito e
esquerda, mas fui certo apesar da atroz duvida pelo caminho. Então começa um
capitulo inesquecível de minha vida. Adoro fotografia, e com a máquina
fotográfica a postos fui para a feira. Fotografei o que achava interessante sob
uma luz ótima, pois estava uma manhã nublada, e o colorido das bananas, laranjas,
biscoitos, botinas invadiam uma estreita pista de meio quarteirão. Pensava ser
maior e de maiores opções, mas que nada. Havia uma única pessoa vendendo peixe,
que fotografei o seu estoque de uma única caixa assim que me posicionei à sua
frente. Enquanto fotografava, perguntei o nome do peixe, de carne clara como
linguado, ele respondeu em meio aos cliques que dava na maquina e, creio,
ricocheteou nos meus ouvidos e na variedade de pensamentos que tenho o tempo
todo, pois não lembrava nem me importava o nome, rapidamente comprei uns quilos
e pensei ir para casa. Além da maquina, que levava numa bolsa, levei uma caixa
de isopor, pensando na fartura que seria, já que minha esposa dizia sempre que
ali havia os enormes camarões da Malásia. No observar a pobreza da caixa,
minguada pelo pequeno volume no fundo, e olhando as horas, umas 8 da manhã, e
certo que estariam todos babando no travesseiro, decidi pegar o ônibus para a
cidade mais próxima, que era grande e com um enorme mercado, onde havíamos
decido na estação rodoviária assim que chegamos de nossa viagem interestadual e
para alguns, com a prova de algumas estranhas fragrâncias do ônibus,
interestomacal ou interintestinal. Uns 20 minutos depois estava chegando ao
mercado, e de cara, com um box de camarões da Malásia, e ao observar direito,
parecia ser o único, e o tal mercado de peixe tinha muita rapadura, banana e
pimentas, mas de peixe mesmo estava bem pobre. Ao mostrar interesse ao
vendedor, esse me informou ter vendido todo o estoque ao sujeito que estava à
meu lado, e este me disse quase simultaneamente que os camarões estavam todo
vendido para um grande restaurante de outra cidade e que ele iria levar assim
que despejasse em sua pequena peixaria um estoque razoável de pescadinha que
comprou, e era na mesma cidade em que eu estava. Disse a ele que minha esposa
estava louca para comer tais camarões, que essa era a minha razão de optar por
aquela região, e alguma saliva após, ele me cedeu uns generosos 7 quilos, e
pelo mesmo preço que comprou. Melhor ainda, me levaria de carona, já que era na
mesma pequena cidade a sua peixaria. O carro parecia ser a própria peixaria,
pelo cheiro e estado, mas mesmo assim, foi um bom papo, mas, bom demais pra ser
verdade, ele ficara num trevo, antes do inicio da cidade, onde ficava sua
peixaria, a alguns quilômetros de distancia da casa em que estava hospedado, e
tendo que levar, no ombro sapecado pelo sol do dia anterior, uma caixa com uns
15 quilos, entre, peixe, camarão e gelo. Pior foi a bronca, pois não percebi
que meu celular havia desligado no bolso da calça o que deixou minha esposa
ligeiramente puta da vida comigo. Fui chegando, com o ombro esfolado, com as
costas doendo, os bolsos vazios e levei um sabão dela e uma gozeira dos
meninos. Dei um sorriso de um lado só da boca, como do esquilo da Era do Gelo
antes de rachar uma ilha, e fui despejar e guardar o soldo daquela aventura.
Claro, eles foram pra praia e me deixaram pra trás. Só não ficou pior pela
minha satisfação de ver a conquista do dia. Pensava no que fazer com os peixes,
se empanava ou fazia uma moqueca, mas decidi pelo empanado já de cara, quando me
lembrei dos adolescentes e de sua preferencia por frituras a cozidos. Após um
dia de praia normal, e de fazer as pazes com todos, com ligeira dificuldade
devido ao humor de ursa roubada de filhote que estava minha esposa naquela
manhã devido ao celular desligado, cheguei na casa, tomei um banho e fui pra cozinha. Temperei os peixes, empanei, e
estranhamente, a farinha não aderia bem ao pescado. Pensei comigo se seria
panga, mas então me lembrei do som das palavras, passando em volta da minha
maquina fotográfica e passando como vento leve pelos meus ouvidos, misturado e
mixado pelo som do mar uns metros abaixo....baiacu.
Sou até bem informado,
principalmente se o assunto é alimento, mas confesso que, ao dar a primeira
bocada num pedaço ainda muito quente, após salpicar umas gotas de limão, descobri
que estava perto do fantástico. Textura, aroma e sabor que me fizeram deixar em
segundo ou décimo segundo plano o tipo de peixe, sua raça, cor, time ou credo.
Fiz salada, arroz e pirão para acompanhar, e foi um nutritivo, leve e excelente
jantar. Ceia terminada e já era evidente a euforia, pois estavam todos coçando
para tomar sorvete e passear no centro da pequena cidade, que limitava a duas
quadras de uma avenida, com uns bares, restaurantes, uma agencia do banco do
brasil e duas igrejas, uma católica e uma da universal eu acho. Provavelmente todas
vazias, inclusive os bares e sorveterias, devido à chuva e falta de turistas. Decidi
ficar em casa lendo, já que minhas costas doíam, bem como o ombro esfolado e o
ego trincado. Não fizeram muita questão de minha presença mesmo, e fiquei
aliviado por ficar sozinho em casa, sem os gritos dos garotos, com um vinho
branco aberto e meu livro que estava pra lá de interessante. Tuareg. Na top
list dos livros que li, creio que esse está entre os melhores. A Biblia não
conta, pois o manual do Fabricante é necessidade antes da obrigação. O senhor
dos anéis deve ser o segundo ou terceiro, e esse Tuareg estava em um ponto em
que não via a hora de abrir as paginas e acompanhar a aventura que estava sendo
descrita de maneira fantástica. De repente, sinto um leve torpor. Fiquei com o
rosto em brasas, meu coração acelerou numa taquicardia em ritmo de samba
enredo, e então meus lábios foram ficando dormentes. Passou então para a minha
língua e a sensação era que em breve minha orelha também ficaria. Meu cérebro
parece ter pegado no tranco, como um maverick que tive no passado que dava um
pulo quando era pra pegar empurrado. As palavras do vendedor de peixes pareceram
ser finamente equalizadas... baiacu, e minha memória, já ativa e repleta de
informações boas e inúteis, trouxe todo o episódio do simpsons onde o Homer come
baiacu, ou fugu em japonês, e fica envenenado e com a morte certa por vir.
Vasculhei a casa e encontrei meu celular, que tinha plano de internet, e com um
misero ponto de sinal, o melhor sinal de todos os dias que tivemos ali, entrei
no site de buscas e coloquei a palavra baiacu. Demorou mais do que o normal,
mas apareceu as letras azuis, separadas em capítulos, onde o primeiro
dizia:..”morre no japão mais uma vitima da ingestão do baiacu”...após ler até
as estatísticas de japoneses que morrem dessa iguaria, voltei e procurei nos
tópicos abaixo, onde um dizia:...”não existe antídoto para o veneno do
baiacu...” Após entrar na corrente sanguínea, era caveira certa. Voltei e no
capitulo que era sublinhado as características de envenenamento por baiacu, comecei
a ler lentamente, com os óculos na ponta do nariz, os lábios parecendo que
receberam uma descarga de fogo e nitrogênio juntos, e o coração querendo
desmanchar na marques de sapucai, fui lendo no misero visor do celular...”lábios
dormentes são o primeiro sintoma, seguidos de taquicardia...”e ... acabou o
sinal. Quase tive um treco ali mesmo. Tentei inúmeras vezes, mas tudo lembrava
um tipo de humor negro, um misto de woody alen e Stephen King, e nada de sinal
novamente. Sentei um pouco e então pensei em minha companheira e nas crianças.
O pavor veio como um banho que se leva quando se coloca uma roupa nova e passa
um carro numa grande poça ao nosso lado. Fiquei paralisado e não acreditando
que aquilo estava acontecendo. Pensei na morte como se fosse algo como um
liquidificador na sala, inconveniente e fora de lugar, algo pra ser lembrada
por velhos, fumantes e comedores de fast food. Eu não estava pronto, não numa
praia, com um bronze legal e uma fartura na adega. Morrer era algo que
certamente arruinaria minha alto-estima. A salvação era algo que tinha certeza,
mas não estava querendo usar ainda, e minha certeza passou a ser juíza de
muitas coisas que lembravam um redemoinho, como no filme twister, a diferença é
que estava no olho, sentado na privada esperando pra ser sugado e, a certeza
estava perdendo para o medo e decepção. Como alguém pode morrer envenenado por
baiacu numa praia do Espirito Santo? Eu me achava esperto, e com bronzeado que estava,
era até injusto. Com um livro na mão embalando numa rede fico até bem
afeiçoado. Não era hora de morrer. Tem o casamento de minha filha que preciso
estar presente, um dia. A morte certa faz você filosofar como não imaginava
poder. Culpa por tudo que não fiz, ou fiz errado, tristeza por tudo que não
farei, dias que não viverei para compensar o pouco que tenho dedicado à Deus,
família, amigos, necessitados, pescaria. Não conseguia simplesmente ser grato
por tudo que já tinha passado e vivido, conhecido e provado na minha complexa
vida. Ingratidão é parceira do medo. Nasci na pobreza, com pai alcóolatra e
ausente, que era melhor que presente, sem tutor, orientador ou modelo a seguir,
consegui ser absorvido pela fantasia, pela vida dos outros, personagens que
conhecia nas inúmeras leituras, começando pelo Conde de monte cristo, que me
valeu o apelido de conde pela minha irmã, por ler inúmeras vezes seguidas,
seguidos por Sobrinhos do Capitão, Ultimo dos Moicanos e assim foi, sem tv em
casa mas com uma biblioteca da igreja São José do Calafate a poucos
quarteirões, e por ser tão frequente, fui promovido a auxiliar de
bibliotecária, que era muito idosa e não
conseguia carregar os livros, pelo então padre Tobias, que me lembrava o guarda
do Zé Colméia, e era muito bacana comigo. Tentou me fazer coroinha, mas não deu
certo, pois eu tive um ataque de riso na minha primeira assistência, ao ver
como as pessoas ficavam assistindo a missa. Eram cochilos, babas pelo canto da
boca, coceiras, caretas, não era pra mim, ainda mais que tinha um incensário,
que lembrava um bolsa pegando fogo, que imaginava encostando na batina do padre
e ele saindo correndo com chamas pelas pernas e se atirando no batistério, como
em desenhos animados. Dificil era mudar minha cara de esforço pra não rolar de
rir. Preferia a biblioteca e os livros, pois me sentia muito importante naquele
lugar. Com poucas semanas já podia levar até um volume da Barsa para casa. Era
o meu sonho de consumo e objeto de inveja de um amigo, que tinha toda a coleção
na biblioteca de seu pai, fora o ter uma família normal. Não que fossemos
anormais, acho que seria necessário nos deixar juntos por mais de 4
horas para sermos classificados como anormais. Mas agora, eu tinha 8 meses de
europa, 2 natais em Nova York, férias no caribe, vários passeios pela America
do Sul, dormi no Saara, conheci 20 paises sem nunca ter sido rico, visitei
todos os grandes museus do mundo satisfazendo um sonho impossível da juventude,
li quilômetros de livros e para saciar não somente minha vaidade e ego
avantajado de comer pratos como das revistas, sem arroz e feijão todos os dias,
aprendi a cozinhar. Não foi difícil, pois desde os 12 anos já auxiliava a minha
mãe, a melhor cozinheira do mundo. Não era bom com carnes, pois até minha adolescência,
era limitada a sobrecu de frango. Mas com o tempo e pratica, me tornei viciado.
Faz alguns anos que gastronomia passou a ser prioridade entre meus
hobbies, mais que fotografia, filmes, musicas e livros. Foram muitos cursinhos,
curso no Senac e faculdade na Estácio de Sá, finalizando com estágio na França
em um restaurante de 3 estrelas. Como deixei essa paixão me matar, sem ser por
indigestão, excesso ou espinha de peixe? Envenenado por baiacu era
decepcionante.
Lembrei-me de alguns amigos e imaginava os comentários em meu
velório, sobre o ter morrido por algo relacionado à comida, que era até
relativamente melhor que por cirrose de vinhos. Minha mente passou a fervilhar,
a liquidificar seria mais correto. Imagens, comidas que queria fazer, os
vinhos... o que seria de meus vinhos, porque
não tomei aqueles que trouxe da Borgonha, da toscana, pra que estava guardando?.
Quem seria o filho de uma égua que tomaria aquele chiante de 1967 que ganhei na
Toscana de um rico interessado em me impressionar, como se eu valesse ser
impressionável?...Minha filha nem minha mulher bebem. Meus amigos iriam rir com
discrição do que deixei para trás e eu nem sei se eu rolaria no tumulo... E as
crianças meu Deus, eu aqui pensando em vinhos, com o ego desmanchando como
clara de ovos entre os dedos num egoísmo que me corou, então sai rua à fora,
literalmente, lama à fora, pois havia caído uma chuva e a porta da casa dava
para um lamaçal que não tinha como desviar. Olhei para a rua e ninguém. Merda,
eu estava sem carro, pra que fui vir de ônibus, eu pensava nessa hora e
imaginava a frase... ”eu te disse, eu te disse” de minha mulher.... O tal de
centro ficava a uns 20 quarteirões à frente, com o chão de terra molhada e
muito barro, uma mistura de brisa fria com vapor com maresia e meu chinelo
parecendo um tamanco pelo barro e fui em disparada. Havia a possibilidade deles
estarem na avenida abaixo, que era beira-mar, mas temia desencontrar, e fui
torcendo pra não morrer antes de ver as crianças e como estavam todos. Percebi
que estava encharcado de suor quando fui chegando na avenida principal, e fui
logo procurando algum amontoado de gente, sirene, gritos de acudam, socorro,
policia, ambulância,vsei lá o que, mas nada, nem eles eu encontrei. Fui de
ponta a ponta dos dois já agora enormes quarteirões de lojas, sorveterias e
bares, e nada, voltei no lado contrário, do que pareceu ter sofrido alguma
expansão mágica, já que as lojas pareciam multiplicar e nada. Talvez tenha
passado depressa demais. Estava suando, com o rosto fervendo e a boca seca, coração
aos galopes, mas não pensei nem em comprar uma água. Refiz todo o trajeto,
talvez ainda mais rápido, atento a qualquer bolinho de pessoas e atento à
alguma sirene ou gritos de desespero, e nada. Talvez estivessem voltados pela
avenida de baixo, ou pela avenida de cima, com uma das crianças passando mal,
talvez com alguma convulsão, visualizava alguém sendo arrastado num ponto
distante da rua, mas era a sombra de um arbusto numa poça abaixo de um poste de
luz amarela. Com olhar atento e ouvido aguçado pelo medo e pela adrenalina, que
parecia martelar meu coração, cheguei novamente em casa, mas nada. Lavei o
rosto, tomei um remédio pra pressão, outro, e quando me ajoelhava para orar e
pedir perdão à Deus pela tragédia que poderia ter causado, ouço um dos
adolescentes rindo alto, e então, muita risada, quando passa então minha meio
sobrinha, com choro contido, pisando forte e cheia de lama, melhor,
completamente coberta de lama. Todos vieram em seguida rindo discretamente,
pois ela havia levado um escorregão brincando com os meninos e caído de cara na
lama. Com seus olhos imensos e verdes, numa mascara de lama, parecia bem
engraçada mesmo. Observei atentamente a cada um deles e ninguém parecia nem de
longe com algum tipo de mal estar, pelo contrário, estavam mais felizes que eu
merecia. Fui tomar um banho, pois estava muito suado e nem notaram que eu havia
saído em uma busca frenética por eles. Tomei uma cuba-libre tripla e fomos
jogar baralho. Estava mais relaxado, até que fomos dormir. Meu coração
continuava disparado, minha língua dormente, e o medo não diminuiu. Peguei o
livro, e deitei ao lado de minha companheira, que nessa noite, para meu alivio,
dormiu em seguida, talvez por toda a agitação e brincadeiras na praia. Coloquei
o copo com uma nova Cuba-libre na cadeira ao lado da cama e fui ler o meu livro,
que estava ótimo e me perguntava se morreria antes de chegar ao final. Pensei
em ler de trás pra frente, mas não, preferi deixar rolar. Li algumas horas e
terminei o livro. Estava com muito sono. Cheguei a dar muitas cochiladas, mas
temia dormir e não acordar, sem perceber que seria um mortaço, morrer dormindo.
Se morrer é dormir, seria apenas uma continuação, mas não sei se sonharia, e muito
menos se estava preparado pra dormir por muito tempo, já que estava trajando
uma bermuda e camiseta bem surrada, que não representava um traje para longa
jornada, mesmo de sono. Peguei outro livro que havia levado, mas o primeiro foi
tão bom que já comecei esse novo desanimado, principalmente pelo esforço de não
dormir. Peguei meus remédios e decidi tomar meu ansiolítico, certo que
dormiria. Chega de medo, pensei e decidi. Tomei com a agua gelada dos gelos que
derreteram da cuba e coloquei o livro apoiado na cama, na minha posição
habitual de dormir, geralmente com o livro caindo, e eu dormindo com o abajur
ligado. Na medida em que as pálpebras iam pesando percebi que o medo foi
embora. Meu coração já estava mais calmo e menos saltitante, e a língua um pouco
melhor, e apesar de tudo que agitava minha mente, estava completamente em paz.
Orei e agradeci a Deus por ter tido na vida muito mais do que mereci, mas acima
de tudo por estar confiante que não fugi de Seu amor, nem desacreditei nas Suas
promessas. Não morri, é claro, e nunca contei esse episódio a nenhum deles.
Acordei com um dia lindo e estava
disposto a repensar muita coisa, mas acima de tudo, de compartilhar alguns
momentos com outras pessoas, já que não sei, nem ninguém sabe, quando será seu
ultimo momento, minha ultima oportunidade de fazer o certo ou evitar o errado,
de acrescentar algo de bom na vida dos outros. Estou certo de que minhas
preferências massageiam minha vaidade, e por ser todo impulsivo, tudo o que fiz
foi exagerado, como a criação de uma adega, nos estudos para entender as coisas
que gosto de ingerir, no tempo que gastei baixando e assistindo filmes ou lendo
livros. Podia ser pior, como gostar de pagode, bbb, novelas e assistir a rede
globo. Lembranças são muitas em quem tem um olhar como tive, valorizando demais
o sofrimento e dificuldades. Já tive meu coração partido, e isso não acontece
duas vezes, depois são arranhões. Vale a pena viver o hoje e ser grato pelo
ontem e crer no amanhã. Gratidão era o que faltava em minha vida. De hipocrisia
e falta de amor o mundo está cheio, pois ele pertence ao mal, ele, todo o
mundo, jaz no maligno, mas eu posso acordar todas as manhãs e renovar, começar
de novo, deixando de lado meus tropeços, erros e as coisas que devem ser
deixadas de lado, pois bronzeado ou não, posso morrer a qualquer momento, até
comendo um prato light.
Como foi um protagonista de toda
minha real trama dramática, o camarão da Malásia será meu primeiro prato a
compartilhar.
Camarão da Malásia com cuscuz e
pêsto.
o cuscuz:
misturar farinha de milho e de mandioca e hidratar.Refogar no azeite a
cebola,atum,palmito,azeitona,tomate e salsa.Misturar a farinha,acrescentar
molho tomate,caldo de camarao ou galinha e pronto.Azeite com manjericão ervas e amêndoas.
Vinho: SAN
JOSE DE APALTA VIOGNIER – Chileno de excelente custo beneficio, pois custa
pouco mais de 30 reais. Tem bom corpo, equilibrado sem excesso de frutas nem
exageradamente ácido. Perfeito para acompanhar peixes, risotos e massas leves.
...então comecei...! Um abraço e parabéns pelo exercício da paciência!



